« ELE, O Outro Movimento e EU »

« ELE » é o meu amigo e mestre Armando Servais Tiago.

« O Outro Movimento » é a minha arte. 

« EU » sou José-Manuel Xavier

Quando se atinge a maturidade, tudo o que estava disperso e desfocado se reúne num traçado nítido que permite identificar o que se deve a alguém.

Devo a Armando Servais Tiago muitíssimo. 

Este facto, leva-me a reflectir constantemente sobre os caminhos complexos da aquisição do conhecimento, sobre as fases marcantes de um processo que permite receber de um mestre aquilo com que iremos, mais tarde, criar em nome próprio. 

Armando Servais Tiago transmitiu-me o gosto pela poesia, pela música, pelas artes e pela busca constante do belo.

Sem se dar conta, talvez, Armando Servais Tiago ajudou-me a construir-me, a tornar-me EU.

EU, José-Manuel Xavier, enquanto herdeiro do seu pensamento, decidi consagrar o restante da minha vida à arte do Outro Movimento que me proporciona, hoje, de o homenagear. 

Armando Servais Tiago nasceu em Lisboa em 1925 e faleceu em 2018.

Se ELE ainda fosse vivo, teria, hoje, 100 anos. 

Esta Masterclass permite-me comemorar este facto, dizer quem ELE foi e quem ELE é dentro da minha memória e dos meus pensamentos e de detalhar a influência que ELE exerceu na minha arte do « Outro Movimento ». 

No pequeníssimo meio da « animação » portuguesa, Armando Servais Tiago continua a ser considerado somente enquanto pioneiro do desenho animado lusitano, por ter consagrado a sua vida profissional à realização exclusiva de filmes publicitários.

Não é disso que vos vou falar. 

Hoje, vou falar do desenhador, do poeta, do músico, do artista, do mestre erudito e do amigo que me faz uma falta terrível.  

Quando em 1962 conheci Armando Servais Tiago, tinha EU 17 anos e ELE, 37.

EU nada sabia dele e ELE pouco sabia de mim, que EU ainda frequentava o curso da noite da escola Antonio Arroio, que desenhava joias para o meu pai e que nunca tinha feito nenhum desenho animado mesmo enquanto amador.

Nesse primeiro encontro perguntei-lhe: que tipo de desenhos acha o senhor que eu deveria apresentar à direcção da agência Êxito?

« ELE » sorriu e respondeu-me: Traga aqueles que lhe deram prazer a desenhar.

Guardei para sempre a noção de prazer e segui o seu conselho. 

Dois ou três meses depois, após uma entrevista e um teste, fui contratado pela agência Êxito enquanto animador profissional, o que me espantou imenso, mas que também muito me agradou.

Convivi com Armando Servais Tiago quotidianamente durante três anos.

Este lapso de tempo foi para mim um período de grandes aquisições e descobertas.

A primeira coisa que me surpreendeu foi de descobrir que Armando Servais Tiago, além de ser realizador e animador de filmes publicitários, era também crítico de cinema para a revista « Plateia ». 

Graças ao seu extenso conhecimento nesta área, pude assim apurar a minha cinefilia e partilhar com ELE a nossa admiração mutua pelos grandes diretores da fotografia como Greg Toland, Gabriel Figueroa, Jack Cardiff, Stanley Cortez, Henri Alekan e outros mais, hoje quase esquecidos. 

Armando Servais Tiago propôs-me um dia, de fazer um serão para acabarmos um filme para um detergente que estava muito atrasado.

Para acompanhar o nosso labor, Armando Servais Tiago trouxe com ele alguns discos para irmos ouvindo música enquanto trabalhávamos. 

O contraste entre o que ouvíamos e o que fazíamos era deveras abissal. 

Contudo, foi dessa maneira que fiz, nessa noite, duas descobertas de destaque, a sinfonia n.° 29 de Mozart, o Réquiem de Gabriel Fauré e que Armando Servais Tiago tinha um conhecimento impressionante da música erudita. 

Desde esse memorável serão nunca mais parei de o interrogar sobre todas as obras musicais que ouvia na rádio e nas salas de concerto que EU frequentava assiduamente. 

Armando Servais Tiago, dotado de uma paciência infinita e de uma sabedoria inigualável saciava-me a sede de conhecer, pondo à minha disposição a sua própria discoteca e fazendo-me recomendações que me revelaram a importância da qualidade de escuta que se deve prestar às obras de música erudita e mais para além, ao mundo sonoro em geral. 

Assim se passavam os dias de trabalho na agência Êxito, entre tarefas duma grande banalidade e densas conversas entre ELE e EU sobre a música e as artes.

Um dia perguntei-lhe: acha que ainda seria tempo para mim de aprender a tocar piano?

Claro que sim, respondeu-me ele. Se o José Xavier quiser, posso falar disso às minhas irmãs.

Foi assim que comecei, como o gato-maltês, a aprender a tocar piano e a falar francês com a sua irmã Violante Servais Tiago.

O convívio com a minha adorável professora, permitiu-me conhecer melhor a personalidade do irmão, e ao mesmo tempo alguns detalhes da sua formação musical.

Soube então que Armando Servais Tiago estudou a composição musical com Fernando Lopes Graça e Francine Benoit nomes que pouco me diziam, nessa altura e que Armando Servais Tiago foi um dos primeiros compositores a compor em Portugal música dodecafónica serial. 

As suas canções sobre 6 poemas de « Paroles » de Jacque Prévert e as 3 peças para clarinete e piano testemunham do seu interesse pela teoria dos doze sons de Arnold Schönberg. 

Da arte do desenho falávamos pouquíssimo. 

Talvez por ELE e EU desenharmos todo o dia e que quando se desenha, deixar decorrer o prazer da mão ao longo dos traços é mais importante que dissertar sobre o que se desenha.

De pintura, sim, falávamos muito.

Armando Servais Tiago chegou um dia à Êxito com um livro debaixo do braço que assim que o abriu fascinou-me. 

Tratava-se do Nouveau Dictionnaire de la Peinture Moderne das edições Fernand Hazan.

O livro fascinou-me porque, até esse dia, a minha cultura em matéria de pintura estava empanada no século XIX.

Devo a Armando Servais Tiago, que compartilhava generosamente comigo o que sabia, o que lia, o que via e o que sentia, uma singular descoberta que despertou de novo em mim o meu gosto pelos títeres.

Ao folhear o Novo Dicionário da Pintura Moderna, deparei com a imagem de um quadro de Carlo Carrà, que, diga-se de passagem, não vale nada, intitulado « ídolo hermafrodita » mas que, misteriosamente, a partir desse dia passou a assombrar as minhas próprias imagens e a surgir em alguns dos meus filmes sob a forma de manequins articulados.

Quem ouve os meus propósitos talvez seja levado a crer que, na agência Êxito, ELE e EU passávamos o nosso tempo a conversar em vez de trabalhar.

Nada disso.

Trabalhávamos muito e, ao mesmo tempo, conversávamos bastante por que tanto ELE como EU desenhávamos com grande facilidade as figuras necessárias à publicidade.  

Contudo, só muitos anos mais tarde é que pude apreciar os desenhos íntimos de Armando Servais Tiago, desenhos complexos, muito elaborados, que ELE ocultava como verdadeiros segredos.

A outra actividade secreta de Armando Servais Tiago era a poesia.

Muitas vezes reparei que ELE escrevia, ao lado do desenho de uma personagem caricatural, frases esparsas, com a sua bela e elegante caligrafia cursiva.

Nessa altura, não me passou pela cabeça serem pedaços de poemas por que durante a nossa convivência na Êxito, Armando Servais Tiago nunca me falou da sua actividade poética. 

Em contrapartida, falou-me muito e recomendou-me assiduamente a leitura da poesia e da prosa dos outros, principalmente a de José Gomes Ferreira, que ele conhecia e admirava, que tive o prazer, 10 anos mais tarde, também de conhecer pessoalmente.

Em 1965, farto até à raiz dos cabelos do Estado Novo, abalei para Paris e durante muito tempo não pus os pés em Portugal.

Foi no início dos anos 90 que ELE e EU nos voltámos a encontrar à beira do Oceano em Espinho. 

Agora, que estou reformado, disse-me ELE, consagro o meu tempo inteiro à minha actividade preferida, a poesia.

Desde esse dia, nunca mais nos deixamos de frequentar, de corresponder, de conversar e de viver intensamente o prazer da nossa indefectível amizade que durou 24 anos mais, preenchida de muita música e carradas de poemas.

Regularmente, Armando Servais Tiago enviava-me pedaços da sua produção poética e musical e EU, não menos regularmente, comentava e estimulava as suas criações quando nos reuníamos em Lisboa, quase sempre à mesa de um restaurante, à volta de um enorme robalo escalado. 

Depois da iguaria ingerida, ELE levava-me a passear à beira do Tejo para eu digerir e matar saudades da Torre de Belém. 

Em julho de 2010, graças à minha amiga, Manuela Carlos, diretora da ETIC, tive a oportunidade de gravar nos locais da sua escola uma longa entrevista com ELE.

A primeira pergunta que lhe fiz foi: Quando começou o teu convívio com as imagens?

Eu comecei a conviver com as imagens muito cedo, ainda muito criança, na primeira infância e então o meu convívio ali era pura e simplesmente imaginação e mão, desenhar imediatamente aquilo que eu imaginava. 

Procurava como que ilustrar aquilo que pensava.
Mais tarde, passou a ficar ligado também ao conteúdo duma narração que informava por assim dizer tudo o que eu pensava.
Mais tarde começou também a entrar na « escrita » desses sinais que nasciam da minha mão, uma relação que tinha muito que ver com o movimento.
Depois pareceu-me pouco ver imagens fixas.
Comecei então a imaginar imagens que teriam movimento.
De início era um movimento subjectivo, completamente imaginado.
Comecei então a imaginar imagens que teriam um movimento autónomo.

Retiro deste primeiro pedaço da entrevista a recordação de duas coisas fundamentais que Armando Servais Tiago me ajudou a descobrir e que se tornaram para mim o fundamento do « Outro Movimento »: O prazer da mão que quase desenha de maneira autónoma, e o desenho como forma de escrita de sinais que têm a ver, como ele diz, com o movimento.

Depois interroguei-o sobre o desenho e a maneira de desenhar.   

Eu acho que o desenho, seja ele obtido pela maneira que for, tem que estar sempre subjacente.
Compreendo que há ainda quem mantenha o prazer do desenho, o prazer da mão, o prazer praticamente físico de desenhar.
Hoje existem outros métodos, que são de uma geração a que não pertenço praticamente (na verdade ainda pertenço porque ainda estou vivo), mas à qual não participo como dantes.
É um mundo novo extraordinário, por aquilo que me dizem  e através do que sinto e vejo, quando é algo que me interessa, porque há muita imagem criada por computador que não me interessa de todo e que até me desagrada profundamente, na sua frieza, na sua esquematização, na sua perfeição.
Diz-se muitas vezes também que há pessoas que preferem, por exemplo, um violino a um órgão porque o violino é muito menos perfeito em matéria de som do que um órgão, é isso que eu sinto também em relação a este assunto.
A perfeição às vezes obtida, mas muitas vezes sem substância nem verdadeira arte, gela-me o sangue e eu, porque sou naturalmente um homem duma época dos anos vinte para cá, continuo a ter o prazer inusitado de pegar num lápis, num pincel e trabalhar com eles directamente.
Não obstante se eu tivesse mais tempo disponível, porque quero fazer outras coisas, não era pessoa que recusasse o convívio com os meios modernos de construção de imagens.

Armando Servais Tiago sempre apontou para dois pontos cardinais da arte do desenho; o desejo e o prazer de desenhar. 

O que ELE diz sobre a « perfeição » sem substância nem arte, devia ser retido e considerado enquanto preocupação constante por todos aqueles que desenham ou que pretende desenhar.

EU também sou daqueles que, como ele diz, preferem a fragilidade do som dos violinos à imponência sonora dos órgãos.

A minha arte, o Outro Movimento, que confunde propositadamente desenho em movimento com movimentos desenhados, a escrita com o desenho e o desenho com a escrita, as imagens com a poesia e a poesia com as imagens, foi ELE, Armando Servais Tiago, que me encaminho discretamente para ela.

Aproveitei então para o questionar sobre as tais « outras coisas ».

A minha actividade poética, começou muito cedo também…
Começou pelos catorze anos…
O culto principal que eu tenho na minha vida artística é da poesia, não é o desenho. Gosto imenso do desenho, trabalho o desenho, tudo isso, mas a poesia é para mim a minha actividade de primeira.
Não quer dizer que seja melhor, nem que eu seja melhor em poesia do que no desenho, se bem que, confesso, acho que sim. 

A poesia par mim foi como que um complemento, porque há algo que é difícil de representar em modos objectivos como se faz com uma imagem parada, uma ilustração, com um filme.
Faltava-me uma outra dimensão que é aquela dimensão em que nós usamos a palavra como descritivo de algo que às vezes é quase indizível. 

Que nós atribuímos à palavra não o significado propriamente gramatical dela mas o significado necessário para que num conjunto elas queiram dizer algo, aproveitando também o ritmo, o movimento que está essencialmente oculto, nessa palavras, mas que nós sentimos…
A poesia nasceu em mim como que um acréscimo e também, tenho que dize-lo sem mistério nenhum, por que senti impulsos que me levavam a dizer o que sinto e esses impulsos eram tão fortes que eu comecei a pensar que tinha que fazer caso deles.
Foi aí que comecei a deixar a mão correr ao logo da linha escrita. 

Na verdade parecia-me muitas vezes que a mão era conduzida, e acontecia até que aquilo que eu dizia não tinha para mim uma lógica necessária, nem me preocupava ser lógico, o que precisava, para mim, era de ser eficaz, como uma espécie de sismo que tem que ser registado.

Desde há muito, Eu também tive, como ELE, a necessidade de dizer o que sinto doutra maneira. 

Aos poucos, descobri que a melhor maneira de dizer as coisas do mundo do sensível são os movimentos, os gestos e os sons.

As palavras não dizem, indicam. 

As palavras para dizerem algo de sensível têm que desobedecer à retórica e deixarem a lógica prosaica de lado.

Tal como na poesia, a música também diz doutra maneira.

À pergunta: como nasceu a tua relação com a música?  Armando Servais Tiago respondeu-me o seguinte: 

A música, nasci dentro dela.
Eu nasci com pessoas de família praticando musica o dia todo.
O meu pai era um músico amador e a minha mãe encaminhou-me para o piano fazendo-me estudar Bach e coisas assim que eu odiava nesse tempo.

Odiava como tarefa…
Depois com o convívio com as minhas irmãs que eram duas musicistas, professoras, que formaram muita gente, tu mesmo ainda fostes aluno duma delas, eu não podia de maneira nenhuma ignorar a música, a não ser que tivesse pouca sensibilidade, mas com a sensibilidade que tenho, pode-se dizer que era um sismógrafo ultra sensível às mais pequenas variações.
Tudo isso ainda hoje, com perto de oitenta anos, o simples ambiente que se descreve, que se sente, que se toca com os sentidos é uma coisa que me faz balançar.
Ambiente que me foi criado por estar horas e horas a ouvir detalhadamente Chopin, Schumann, Beethoven.

Isto contou imenso e comecei a ter uma convivência íntima com a música, muito, muito íntima, uma convivência do tipo quase confissão…
Quando eu ouvia Bach ou Beethoven eles estavam como que falando comigo e eu falava com eles, de certo modo, numa linguagem sem palavras, mas que tinha imensas relações harmónicas, contrapontísticas, ou de escrita simplesmente melódica.
Isso veio criar em mim outro tipo de imagens, imagens que estavam relacionadas com o mundo sonoro.
Posso também dizer que a poesia foi terrivelmente influenciada pela música, naquilo que ela tem de musical, de maneira que ela foi influenciada pela imagem, porque as minhas poesias, desde a minha juventude até há pouco tempo era essencialmente descrição de imagens. 

Depois passou a ser mais uma descrição intensa de emoções e de comoções.
Ainda hoje, às vezes, ponho-me a ouvir uma música para escrever um poema, extraio dela, por assim dizer, qualquer coisa, uma síntese que me leva a criar um estado de quase hipnose primária em que uma pessoa escreve quase insensivelmente algo que tem que ver com o que está sentindo do ponto de vista musical.
Para mim, portanto desenho, movimento do desenho, poesia, música estão todas relacionadas e estou convencido que quem conhece aquilo que eu faço, mesmo superficialmente, reconhece isso. 

Que na parte da imagem há algo de musical, que na poesia há uma forte influência da música e que na música há uma forte influência dos meus tempos poéticos. Como sabes, estas minhas actividades estão muitas vezes compartimentadas, mas há passagens. Há zonas de passagem. Estão de tal maneira compartimentadas que tenho quase épocas, como as crianças têm às vezes a época do berlinde, do pião e do arco. Pelo menos na minha infância era assim.

O convívio comArmando Servais Tiago foi sempre para mim uma fonte de prazer 

Quando EU o questionava, as respostas que ELE me dava, tinham o condão de fazer crescer ainda mais a minha curiosidade e o meu vivo interesse pelas coisas.

Foi ELE que me levou a dar a devida atenção e o cuidado imprescindível à observação de tudo o que se vê e a tudo o que se sente.
Foi ELE e os seus poemas, que me revelaram a maneira de aceitar, de escutar e de sentir intensamente o que se esconde por baixo das palavras.

Das múltiplas coisas que ELE me transmitiu, retiro sem dúvida as duas mais importantes: a lucidez e a ironia, duas virtudes constantes da sua personalidade.
Armando Servais Tiago foi para mim um mestre, um amigo, porem para muita gente, um desconhecido.

EU, fui para ELE um discípulo, um amigo, o confidente a quem ELE confiou uma volumosa parte da sua criação poética.


Do encontro excepcional que nos reuniu em 1962 até hoje, o pensamento de Armando Servais Tiago continua a inspirar o que faço, o que escrevo e o que desenho.

Permitam-me encerrar esta homenagem com a leitura de um curto poema escrito à mão na primeira página do seu livro « voz íntima » que ELE me dedicou:

O dia preclaro
e único
trouxe-me de muito longe todo 

o passado por onde paro 

como ave agoirenta
ou monge
que a nostalgia inventa. 

Eu sou talvez
a hora tardia
o já vivido
o declinar que vês
do século
até ao meu último dia… 

A luz vibra ainda 

algures nos meus olhos 

algures no meu tempo 

de homem que finda
e que ultrapassa
os últimos escolhos 

mas que guarda, enfim 

o temor, a ameaça
que pende do alto 

como a vertical do fim. 

À « velha poesia » – acrescentou ELE – juntei para ti um último poema de hoje.
Desculpa a minha insuficiência poética mas é o melhor que tenho para ti. Um grande abraço do Servais 20/1/99

A frase « Desculpa a minha insuficiência poética » é reveladora de personalidade inquieta, de Armando Servais Tiago e das dúvidas que o angustiavam sobre valor da sua poesia.
Talvez seja esta a razão que o levou a ocultar o melhor dele mesmo por detrás das actividades profissionais que ELE exerceu para subsistir.

Agora, vou-vos falar um pouco mais do Outro Movimento.

O Outro Movimento começou por ser um conceito, mas muito rapidamente tornou-se o instrumento que me permite dar livre curso à minha busca da imprecisão.

O Outro Movimento é também o processo com que faço coisas indefinidas.

Com ele improviso poemas para o olhar.

À uns anos atrás, O Outro Movimento, começou a forçar-me a mão, por assim dizer, para eu escrever um livro sobre ele.

Perguntei-me então: Como? De que maneira?

Depois de muito cismar decidi falar do Outro Movimento em 120 poemas que reúnem palavras e imagens, mas como à nascente d’uma nascente há sempre outra nascente e assim sucessivamente até ao infinito, levantei o nariz da minha escrita e perguntei-me de novo: O que desencadeou nestes últimos anos a irrupção do Outro Movimento no meu pensamento e no meu processo de trabalho?

Depois, como penso à francesa e em francês disse para comigo: 

En quoi consiste l’Autre Mouvement?

A resposta provisória que me veio de imediato à mente foi a seguinte: 

O Outro Movimento é um processo de escrita de movimentos improvisados que me permite escapar ao identificável. 

Em seguida também pensei que o Outro Movimento consiste num processo de escrita de  movimentos improvisados que me permite evitar de obedecer aquilo que mais detesto; a « linguagem » cinematográfica.

Por fim, após reflexão, a minha consciência surgiu à minha frente, antipática como sempre, e disse-me; José-Manuel Xavier, sendo a tua primeira curta-metragem de autor, « Désert », totalmente improvisada, realizada em 1982, quer dizer, há quarenta e três anos, que entendes tu por « nestes últimos anos? ». 

Depois de EU lhe balbuciar que para mim o tempo não existe, ela prossegui:

Há décadas que tu arrastas contigo o Outro Movimento ou, dito doutra maneira, há décadas que o Outro Movimento te persegue como a tua sombra.

Conclui que a minha consciência tinha razão e que aquilo que mudou foi que, agora, como eu só faço o que me apetece e o que me dá prazer, posso improvisar tudo o que quero e desejo sem ter que justificar seja o que for e ainda menos explicar o porquê do que faço.

O Outro Movimento sendo, portanto, um território de liberdade total de criação, tanto estética como formal, a única maneira de o dizer não podia ser que poética e « tant pis pour ceux qui n’aime pas la poésie »

Querem que traduza?

E tanto pior para aqueles que não gostam da poesia.

Contudo, após ter escrito os 120 poemas, dei-me conta que eles talvez sejam mais aforismos poéticos de que verdadeiros poemas, mas…

O que são verdadeiros poemas?

Para mim, os verdadeiros poemas são aqueles que escrevo segundo os meus conceitos dentro de cadernos e de livros, por que para além da imprecisão e do indefinido, a clandestinidade também sempre me seduziu.

Parei então de me questionar e prossegui a caminhada pela minhas sendas preferidas.

Recentemente fiz coisas que me deram um imenso prazer, que desta vez não escondi, bem pelo contrário.

É o caso do filme Mind the Gap que tive o privilégio de realizar sobre a música maravilhosa de Luís Tinoco.

O filme Mind the Gap é composto de 4 sequências de movimentos improvisados de manchas, linhas e traços, que surgiram do ritmo, da dinâmica e das linhas melódicas da música de Luís Tinoco.

As imagens de Mind the Gap dançam ao sabor da coreografia que a sua obra suscitou na minha mente.

Duma ponta à outra, a movimentação dos traços, linhas e manchas de Mind the Gap  procuraram-me um prazer inefável.  

Tudo isto tornou-se possível graças a Ana Santos e Noel Palazzo, organizadoras do Festival Punto y Raya.

Aproveito para lhes agradecer uma vez mais este excepcional « regalo ».

Mais recentemente ainda, o meu très cher ami Luís Tinoco fez-me a surpresa de sonorizar a minha primeira série de « Pensées intimes » com três preciosos extractos de músicas da sua autoria que me encantaram.

Dado que neste trabalho que vos vou mostrar, o movimento está ligado ao sentido das palavras, traduzi, para as pessoas que desconhecem a língua francesa, o poema original que me inspirou:

Pensamentos íntimos

As palavras encantam-me quando não contam nada.

Gosto quando elas murmuram e dizem de uma maneira imprecisa as coisas.

Dizer a imprecisão das coisas não é fácil

Às vezes tento desenhar coisas que não existem, mas uma vez representadas, 

Elas põem-se a viver à sua maneira 

O que me surpreende sempre.

Tal como o vazio e o silêncio, a imprecisão é uma busca infinita.

Com as 120 imagens que fiz para o livro « O Outro Movimento » realizei uma experiência de acentuação rítmica baseando-me naquilo que digo num dos poemas do livro onde falo da sonata Opus 111 de Beethoven. 

Diz o poema:

A sonata Opus 111 de Beethoven
É a que mais me impressiona.
O segundo andamento, chamado « arietta »,
Um adagio « molto semplice e cantabile »
Sempre foi para mim, uma torrente
De inspiração.
O ritmo e a dinâmica que dou aos meus movimentos, 

Aprendi-os no que Beethoven me dá a ouvir.
Um dia talvez consiga, com algumas linhas, apenas, 

Atingir a requintada fusão
Da serenidade e da inquietação
Do final desta sonata.

O resultado quase hipnótico que sobressai desta repetição cíclica de imagens conjuntamente com a « arietta » da sonata N.° 32 de Beethoven surpreendeu-me.

Talvez ele vos surpreenda também.

Agora, para « boucler la boucle », quero dizer, para terminar, permitam-me evocar uma vez mais o meu mestre e amigo Armando Servais Tiago.

Foi ele que um dia me disse que Beethoven compôs 32 sonatas para piano.

Fiquei vexadíssimo por ignorar este facto e enquanto não as ouvi todas, esmiuçadamente, não descansei.

As vezes quando ando pelas ruas, olho para as pessoas que passam à minha volta e pergunto-me: será que esta gente também não sabe que Beethoven compôs 32 sonatas?

E depois resmungo para comigo: como poderia EU continuar a caminhar na vida sem saber, sem ouvir, sem ver tudo o que a arte, a música e a poesia têm para me oferecer?

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