Introdução para o Livro de Ilda Castro « Animação Portuguesa – Conversas com… »

Conheço bem duas das catorze pessoas entrevistadas neste livro.
Das doze outras não posso dizer o mesmo.
Se por um lado, os catorze actores que vão surgir no palco deste teatro de animação, desempenhando segundo as épocas e as circunstâncias diferentes papeis, não constituem numericamente uma super produção, por outro lado, tendo em conta que a peça decorre num pais esquecido e misterioso, já não é nada mau. Em todo o caso, graças a este conjunto de entrevistas, muitas pessoas como eu, que pouco ou nada sabem sobre a dita animação portuguesa, vão-se sentir menos ignorantes.
Curiosamente reparo que nunca perguntei aos dois amigos que figuram no lote dos entrevistados, quais foram as razões as levaram a fazer na vida animações ou filmes desta espécie.
Pudor ? Não creio. Será que entre gente animada a animação é considerada como uma coisa natural ? Não, é impossível. Ninguém nasce para fazer filmes de animação. No entanto compreendo que, uma vez o hábito adquirido, isso possa procurar a certas pessoas um prazer exclusivo.
No que me diz respeito, anónimo habitante deste mundo sem pés nem cabeça, três coisas simples dão-me ainda grande prazer na vida : comer pão, beber água fresca e falar francês. Mas aquilo que mais me agrada é pensar. Depois vêem outras coisas mais complexas, tais como ouvir, olhar e ver. De maneira geral, estar atento. Só depois destas e de muitas mais é que chega enfim o tal prazer de animar desenhos.
Quando eu era pequeno, as leis moralizadoras do regime do Doutor Salazar não me permitiam ver outra coisa nos cinemas senão filmes de desenhos animados, essencialmente os do Disney.
Esta chatice durou anos. Só a partir dos doze é que então pude regalar-me com o “Robin dos Bosques” de Michael Curtiz e outros filmes de aventuras e de pancadaria.
Daqui provem certamente a minha profunda antipatia pelos desenhos animados.
Nasci em Lisboa, nos anos quarenta, e ainda bem. Tive a sorte de não existirem em Portugal, escolas onde se ensinasse animação. Segue-se que no dia em que comecei a exercer este oficio não sabia animar. Felizmente ninguém deu por isso.
Faço desenhos animados desde muito jovem. Comecei esta singular actividade em 1962 na agência “Êxito” onde tive a felicidade de encontrar o meu primeiro Mestre, Armando Servais Tiago. Com ele aprendi quase tudo : a ouvir os sons, a ver as imagens, a ver os sons, a ouvir as imagens, a pensar as coisas que se ouvem e que se vêem. A única coisa que ele não me ensinou foi a desenhar porque nesta arte nunca tive mestres. Mas a coisa mais valiosa que ele me transmitiu foi o gosto, o sabor da ironia, que é a forma superior da liberdade de pensar.
Nos anos 60, a liberdade era um conceito perigosíssimo. A minha vida de jovem profissional da profissão era um caminho estreito, entalado entre o ambiente generalizado de cobardia, submissão, mesquinhez e delação (entre outras particularidades reles do regime do Senhor Doutor) e a liberdade, quase obscena (perante uma tal situação), de poder animar quotidianamente traços, formas e figuras e de receber, ainda por cima, um bom ordenado.
Mas como sempre achei, creio eu, que só se devem realizar certas coisas em certos sítios (talvez me tenha apercebido disso graças as minhas tias-avós que eram meias bruxas e inteiramente espiritas), a hipótese de continuar a fazer desenhos animados rodeado de fascistas de meia tigela e de cadeias cheias de gente inocente pareceu-me à dado momento intolerável, de maneira que abalei. Foi para França, para a terra da Yvonne e do Charles de Gaulle, onde ainda vivo.
E assim andei, durante anos e anos, zangado com Portugal e com os portugueses.
O tempo foi passando. Quando ao fim de mais de 10 anos de ausência, voltei de novo a por os pez em Lisboa, profundamente contrariado, pressionado pela curiosidade dos meus filhos, dei-me conta que a animação portuguesa (quero eu dizer, feita em Portugal por portugueses) encontrava-se quase na mesma situação em que a tinha deixado. O Armando Servais Tiago e o Mário Neves continuavam a viver, assim como os outros, de filmes publicitários. O Ricardo Neto e o Artur Correia é que tinham entretanto ambos realizado umas curtas metragens, que vi, por acaso (não sei se todas) em Annecy, graças à propaganda feita durante o festival pelo Vasco Granja, enfim livre e feliz de poder conjuntamente militar pela causa da animação portuguesa e as ideias do 25 de Abril. Voltei para Paris e lá fiquei mais uns bons tempos a animar, a ensinar e a cismar sobre a tremenda imobilidade do mundo português.
Vista de longe (uma das melhores maneiras de apreciar as coisas a valer) a dita animação portuguesa é um objecto de estudos estranho o que não é de espantar. A animação é em si uma actividade estranhíssima.
Afirmo, porque o constatei, que quando é praticada em demasia, a animação pode conduzir ao cretinismo. Quantos amigos e colegas, que usam e abusam dela, não me têm estragado almoços e jantares com conversas estúpidas e imbecis sobre diversas espécies de criaturas animadas. O pior é quando eles se põem a contar o seus cartoons preferidos (que foram feitos para ser vistos e não para ser contados) rindo muito, gargalhando nevroticamente. Para muitos deles, a animação é um mundo infantilizado por bonecos animados. Para outros, a animação é uma perpétua frustração na medida em que “o mercado” (como está agora na moda dizer) obriga-os a realizarem, para subsistirem, pelintrices animadas indignas dos seus ideais e capacidades.
Ora a minha zanga teimosa com Portugal e com os portugueses oculta-me às vezes o facto de que uma fatia estreita da minha vida profissional começou nesta terra.
Recordo-me da minha primeira animação.
Tratava-se de fazer saltitar duas personagens-crianças duma piroseira absoluta. Principalmente a da menina que tinha tranças. Foi nessa altura que as 27 projecções (pelo menos) que vi da “Branca de Neve e os Sete Anões” serviram-me enfim para qualquer coisa. Animei as tranças da menina “à americana”, quero eu dizer com tais atrasos e acelerações que por fim parecia que a pobre criança tinha de cada lado da cabeça duas caudas de vaca a enxotar moscas.
Curiosamente a minha animação agradou.
E enquanto o Armando Servais Tiago, homem generoso e paciente, me iniciava no mundo da arte, a vida profissional lá me ia oferecendo a oportunidade de animar minúsculos filmes disparatados que promoviam detergentes, pastas dentífricas, bebidas solúveis e pastilhas para a digestão. Foi assim que aprendi a animação, da melhor das maneiras, fazendo-a.
A bonecada dos filmes publicitários que animei durante o meu período de ajudante pioneiro da animação portuguesa eram quase toda bastante macavenca. Até parece que estou a vê-las, entaladas nos seus contornos sistemáticos, estandardizados, género “desenho animado”, sem que me tenha passado pelo espirito, uma só vez, desenha-las doutra maneira. Meu Deus! Como elas eram rígidas e permanentes. E eu, parvalhão, contentava-me simplesmente de as deslocar.
As vezes pergunto-me (para tentar desculpar-me, certamente) :
– Diz-ma cá Zé, quando vivias em Lisboa, afogado nas velharias do Estado Novo, como é que tu querias desenhar outra coisa senão personagens rígidas e permanentes ?
Felizmente a minha actividade como animador em Portugal durou pouco, três anos apenas.
Mas foram três anos que me marcaram para sempre. Porquê e de que maneira ?
Vou responder, mas antes vou dizer coisas desagradáveis.
A animação, tal como a humanidade, desde o dia em que nasceu deu para o torto.
Fruto das necessidades duma demonstração científica realizada em 1832 por um sábio belga, que ficou cego por ter olhado demasiadamente para o sol, a animação perdeu-se muito rapidamente em anedotas e peripécias risonhas, giras, e engraçadas de natureza a encantarem o público pouco encantador do museu Grévin, onde o Senhor Emile Reynaud mostrava regularmente as pantominas luminosas do seu Praxinoscópio. Mais tarde, quando se começaram a fazer desenhos animados com câmaras cinematográficas as coisas pioraram. Com o cinematógrafo nasceu a industria do desenho animado que povoou os écrans duma saraivada de ratos e de coelhos, de cães e de gatos de todos os tamanhos e feitios, a correrem todos uns atrás dos outros, de princesas parvas e de príncipes idiotas, cada vez mais ”encantadores”.
Durante o desenvolvimento daquilo que chamamos hoje “o mundo da animação” surgiram no meio disto tudo, Deus sabe como, por aqui e por ali, autores, artistas e criadores singulares que tentaram, contra ventos e marés, fazer outra coisa que parvoíces animadas. Entretanto a industria do cinema de animação foi varrida pela onda de choque da televisão. Então, para poder responder ás sôfregas e gigantescas necessidades da produção televisiva, criaram-se escolas para formar profissionais ao quilo, jovens de preferência, para poderem ser utilizados e explorados como convém, especializados e devidamente diplomados em porcarias animadas. Por fim, a mundialização deu com tudo em pantanas.
Actualmente o profissional da indústria de animação de massa, é obrigatoriamente um estrangeiro que vive numa terra longínqua e que exerce a sua actividade como quem pede esmola.
Quando, em 1962, foi trabalhar para a agência “Êxito”, graças a Deus as coisas ainda não eram assim. Hoje é que me apercebo da chance que tive.
A “Êxito”, na qual mergulhei com 18 anos fresquinhos, era perpetuamente atravessada por personalidades ditas “do reviralho” tais como, Alves Redol, Alvaro Guerra, Fernando Santos, Baptista Bastos, Fonseca Costa, Alberto Ferreira, Fernando Lopes entre outros. Toda esta gente, que representava “o outro mundo” (o das ideias, da literatura, da cinematografia), que eu via e ouvia, arejava de certo modo e de diferentes maneiras o meu oficio que é, diga-se de passagem, uma actividade de tarados que consiste em passar horas e horas debruçado sobre uma mesa de luz a fazer um desenho, mais um desenho, mais um desenho, mais um desenho, e isto durante dias e dias. Sem dúvida, a animação precisa de ser arejada regularmente, por outras disciplinas senão, tal como certas casa fechadas durante muito tempo, acaba por cheirar a bafio. E se possível por disciplinas situadas aos antípodas do mundo da caricatura, do grotesco, da piada fácil, do boneco patusco. Foi também na “Êxito”, com o meu Mestre Armando Servais Tiago que aprendi como é importante fazer bem as coisas que não têm importância nenhuma. Graças a ele, comecei a pressentir que a animação é mais um meio do que um fim. Um meio para quê ? Para descobrir, compreender e interpretar o mundo. O meu segundo Mestre, Alexandre Alexeïeff, confirmou-me este pressentimento anos mais tarde.
E se hoje me dou conta da sorte que tive em ter convivido com toda estas pessoas que contribuíram de certo modo à construção daquilo que sou, reparo que foi igualmente na “Êxito” que comecei a dar a devida atenção aos seres invisíveis, semi-visíveis e aos mortos.
Os mortos, os semi-visíveis e os invisíveis desempenham nas nossas vidas um papel muito mais importante que todos os vivos reunidos. Sem eles, e sem tudo aquilo que nos deixaram, ideias, livros, peças, músicas, desenhos, pinturas, esculturas, palácios, catedrais, a vida seriam uma tremenda chatice.
Por exemplo, o Armando Servais Tiago falava-me muito dum indivíduo singular que tinha sido colega dele nos hospitais civis de Lisboa, que tocava lindamente guitarra e que se chamava Carlos Paredes.
Em Lisboa nunca o vi.
Só anos mais tarde é que tive o privilégio de o encontrar e de passear com ele pela noite fora, na ruas desertas do Boulevard des Italiens, em companhia do seu parceiro Fernando Alvim, após a participação insólita destes dois geniais guitarristas num espectáculo de fadunchos para imigrantes ao qual assisti (quase à força) no Olimpia de Paris.
Um outro, este, semi-visível, o grande poeta José Gomes Ferreira, de quem o Armando Servais Tiago me falava assiduamente. O autor de “O Mundo dos Outros”, o único livro em língua português que levei nas malas quando deixei Portugal e os seus senhorios. Esta grande figura, avistava-a só de longe, no teatro Tivoli, durante a temporada dos concertos de Outono.
De vez enquanto lá aparecia ele, um pouco carrancudo, com a sua cabeleira abundante e branca. Impressionante!
Em 1980, tive o imenso prazer de passar uma tarde inteira com ele, a propósito do meu desejo momentâneo e descabido de querer transformar o seu conto mágico “As Aventuras do João Sem Medo” num filme de longa metragem em desenhos animados (desejo que acabei felizmente por não realizar).
E depois, enfim, o meu terceiro Mestre, o meu Mestre de sempre, um morto-vivo, o Fernando Pessoa, de quem o Fernando Santos falava muito e muito bem, sem se dar conta sequer que aquilo que ele dizia sobre o Pessoa vinha esconder-se nas minhas orelhas.
O Fernando Pessoa, como é obvio, nunca o vi e nunca o encontrei. Bem tento, mas não consigo. Mas cada vez que caminho sozinho nas ruas de Lisboa sinto a presença protectora dele ao meu lado, assim como a do meu pai. Foi o Fernando Pessoa que me apresentou, através dum livro, “Fernando Pessoa – Le Théâtre de l’Être”, trinta anos mais tarde, à Teresa Rita Lopes. Ela, por sua vez, que vive com ele à uma data de anos, revelou-me plenamente quem ele era.
Entre os vivos havia uma outra silhueta, silenciosa e discreta que eu também só via de longe.
A do Mário Neves. Durante os meus anos “Êxito”, o Mário Neves representava, por diferentes razões e antes de mais, a concorrência. Nas raras ocasiões em que o encontrava, reparei que andava muitas vezes acompanhado dum catraio tímido e silencioso, era o Mário Jorge, o filho dele. Sempre lamentei não ter travado mais amplo conhecimento com os dois quando vivia em Portugal. Mas o Mário Neves intimidava-me. Adivinhava nele uma personalidade extraordinariamente irónica, duma ironia voltada para dentro duma terrível lucidez. Quanto ao Mário Jorge, ele era mais novo do que eu e eu, nessa altura, só tolerava gente mais velha. Foi à pouquíssimos anos que consegui reunir enfim, à volta da mesa dum restaurante colorido, lá para o lado das Olaias, o Armando Servais Tiago, o Mário Neves e o Mário Jorge. Foi um regalo.
Destes factos recordados sem a mínima partícula de nostalgia, sobressaem o porquê e a maneira como três anos de vida profissional passados em Portugal marcaram para sempre a minha relação intima para com a animação. Após a minha instalação em França nunca mais me preocupei daquilo que poderia vir a acontecer no pequeníssimo meio da dita animação portuguesa. Por que razões ?
Para começar, estava zangado. Depois, odeio os meios profissionais. São meios detestáveis, infestados por aquilo que há de pior em matéria de sentimentos humanos, aonde quase todos se servem da animação para adquirir estatuto, notoriedade e reconhecimento em vez de a servirem. E também porque não sei nem nunca soube, nem quero saber, o que é a animação portuguesa. Como também não sei o que é a animação francesa, nem tão pouco a espanhola, a chinesa ou a tchetchena ou o raio que as partam. Porque detesto visceralmente o nacionalismo e as etiquetas. A animação é uma coisa desenhada, ora objectivamente ora subjectivamente que se concretiza a um dado momento em imagens e as imagens não têm nacionalidade. As imagens são como os sons, universais.
As línguas é que têm uma nacionalidade. Um livro escrito em língua alemã só poderá ser lido, e eventualmente compreendido e apreciado, por um alemão ou por alguém que saiba ler alemão. Mas uma imagem realizada por um alemão pode ser vista e compreendida por qualquer pessoa, mesmo por um esquimó. Destas estão os museus cheios.
Quando, com 10 anos de idade, vi no Prado pela primeira vês um quadro do Velasquez, não precisei de saber falar espanhol para compreender que tinha à minha frente a imagem de um miúdo instalado sobre uma enorme cavalgadura que muito me impressionou. A animação é como a música. O Rimsky-Korsakov era russo e compôs um Capricho Espanhol. O Scarlatti que era italiano, inventou a musica clássica espanhola. O Debussy era francês, o que o não impedido de compor a Ibéria. E agora pergunto : o filme do Alain Taner, “Dans la Ville Blanche” é um filme suíço, francês ou português ? E se é suíço de qual Suíça ? Resposta : o filme do Alain Taner é um bom filme, melhor, um belo filme e isso já chega e sobeja.
É neste sentido e noutros que, vista de longe, a dita animação portuguesa apareceu-me, a um dado momento, como uma coisa estranha. Vou tentar explicar porquê.
Enquanto trabalhei em Portugal, só encontrei portugueses no meio da animação portuguesa. Assim que cheguei a Paris dei-me imediatamente conta que a animação em França era feita por uma caterva de estrangeiros. Eram polacos, checos, espanhóis, russos, americanos, jugoslavos, italianos e até mesmo alguns franceses e um português, eu.
E toda esta boa gente animava todos os dias, fazia filmes, sem saber de que nacionalidade eram as animações e os filmes que faziam. Por esta razão nunca me senti estrangeiro em França. Pelo contrario. Sentia-me em casa. Mas não como numa casa “à portuguesa”, pequenina e airosa onde se vêm e se encontram sempre as mesmas pessoas e onde se fala sempre das mesmas coisas, na mesma língua. Nada disso.
Sentia-me “chez-moi” numa casa grande, imensa, cheia de gente, de gente diferente, com ideias diversas, variadas, contrastadas e a abarrotar de coisas novas. Outra maravilha era o facto de que comunicávamos todos uns com os outros numa língua que não era nem a minha, nem a tua, nem a dele. E quando o francês era escasso, que não chegava, metiam-se no baralho outras línguas. E tudo isto fazia imenso bem ao cérebro, oxigenava-o, e com o cérebro bem arejado as animações, que são um trabalho de inteligência, saem muito melhor dele.
Outra coisa estranha observada de longe : a peixão dos animadores portugueses pela técnica do desenho animado. A tal ponto que no dia em que vi em Lisboa, no cinema Império, pela primeira vez, o filme “Le Nez” de Alexandre Alexeïeff, filme este realizado sobre o mítico écran de agulhas, fiquei de pés para o ar. Em Paris, mal tinha chegado, convidaram-me logo para assistir a uma sessão de filmes de animação organizada pela A.C.A. (Association du Cinema d’Animation). Entre outros, estavam programados os filmes “L’Idée” de Berthold Bartosch e o soberbo “Harlequin” de Lotte Reininger. Estes duas obras fascinaram-me. Antes demais não eram desenhos animados e no caso da Lotte Reininger era a primeira vez que eu via um filme de animação realizado por uma mulher. Como se sabe, nos anos 60 em Portugal, as mulheres do desenho animado eram as operárias (nessa época não era conveniente dizer proletárias) que executavam os desenhos feitos pelos homens. Mais tarde, quando tive a oportunidade de esmiuçar os dispositivos técnicos necessários à realização destes dois filmes desmanchei-me a rir. Explico : enquanto trabalhei em Lisboa sempre ouvi os profissionais da profissão queixarem-se da miséria dos recursos técnicos.
Lamentavam-se muito, as trucas eram péssimas, as câmaras não prestavam para nada, etc.
O material utilizado por Bartosch, Reininger e mesmo por Alexeïeff, (que sempre usou uma câmara com manivela, uma verdadeira antiguidade), o material utilizado por todos estes artistas, dizia eu, era dez vezes pior do que aquele que existia em Lisboa. A truca multiplana, que serviu para realizar o filme “L’Idée” (o filme mais digno de toda a história do cinema de animação), fabricada pelas mãos do próprio Bartosch no sótão dum teatro, era um aglomerado heteróclito de barrotes de madeira montados de tal maneira que fazia medo. Dei-me conta, descobri, que cada um destes artista criava, segundo os seus objectivos e necessidades, os seus próprios dispositivos de trabalho, que não valiam nada (eram autênticos cangalhos), mas com os quais realizaram animações mestiças, fascinantes, evocadoras, duma rara beleza. Obras de estilos bem diferentes da churra de convenções erigidas pelo “desenho animado” e do seu cortejo de personagens pencudas, chaparras, perna curta, pés grandes e quatro dedos, executadas, mortas, assassinadas por contornos firmes e bem estandardizados.
Quando anos depois da minha primeira volta a Lisboa, comecei a apontar de novo os meus binóculos de navegador português na direcção das areias Lusitanas (mais sujas de que autora), pressionado desta vez pela minha “douce et tendre” que é francesa (mas que gosta muito mais de Portugal e dos portugueses do que eu), lembrei-me mais duma coisa que alimentava ainda a minha zanga.
Talvez me engane e se não é verdade que me perdoem mas deu-me sempre a sensação, através daquilo que pude observar, sobre tudo quando exercia a minha actividade em Portugal, que para o profissional português a animação é uma maneira entre outras de ganhar a vida.
Em França estávamos todos convencidos do contrario. A animação é uma das múltiplas maneiras de estragar a vida. A começar pelo Emile Reynaud que, desesperado, incompreendido, esmagado pelo cinematógrafo, deitou para o Sena toda a sua obra, o trabalho duma vida inteira, para depois morrer na miséria. E do outro Emile, o Emile Cohl que morreu teso como um carapau. O do grande Berthold Bartosch, um gigante, um génio, que também morreu pelintra. E quantos outros não acabaram da mesma maneira. É que para toda uma geração de profissionais franceses, repito, para os polacos, checos, espanhóis, russos, americanos, jugoslavos, franceses, italianos, portugueses, que exerciam a sua actividade em França, a animação representou sempre algo mais do que um oficio, mais do que uma mera profissão. Era uma arte.
Foi isso que me espantou desde a minha primeira colaboração como animador em Paris, junto do Manuel Otero na Cinemation e que me cativou para sempre. Para ele e para o seu sócio Jacques Leroux, um autor de grande valor que realizou nos anos 60 um belo filme, subtil e delicado, intitulado “Pierrot”, era vital realizar filmes de ficção para poder experimentar novas técnicas, novos métodos narrativos, outros estilos de animação. Era impossível contentar estes dois valorosos artistas somente com trabalhos de encomenda, fossem estes filmes publicitários, industriais ou de divulgação. De maneira que entre as 9 e as 17 horas trabalhávamos para ganhar a vida e a partir das 17 horas arrumava-se para um canto o trabalho ganha pão e abriam-se as gavetas fabulosas das animações da curta metragem clandestina em curso. Compensávamos assim a chatice do esquema animado dum reactor nuclear, ou de qualquer outro frete comercial, com animações que ninguém nos tinha encomendado e que nos levavam a trabalhar (mas não era trabalho porque nos dava prazer) até altas horas da noite.
Quando trabalhava em Portugal, nada vi de semelhante. Porquê ? Porquê ? Pondo de parte os verdadeiros pioneiros, que fizeram filmes numa época em que a animação nem sequer era ainda uma profissão, será que os outros, os profissionais da profissão só começaram a fazer curtas metragens, filmes de autor, no dia em que se criou o Instituto Português de Cinema e que começaram a chover subsídios ?
Hoje ainda me submeto (e penso submeter-me até morrer) ao princípio simples que me ficou destes anos. Nunca me deito antes de ter realizado qualquer coisa, um desenho, uma animação, um poema, uma frase, que ninguém me pediu para fazer.
Graças ao meu Mestre Pessoa nunca sofri de tremeliques identitários. Para mim, ser português é, como ele dizia, ser totalmente europeu sem a indelicadeza duma nacionalidade. De maneira que nunca senti a necessidade de trabalhar sobre o património cultural português para realizar filmes ou seja lá o que for.
Quando entrei em estreita relação com o meu Mestre Alexandre Alexeïeff dei-me conta que este imenso artista enraizou sempre o seu trabalho no património cultural russo. Este facto deu-me que pensar. Para mais, ele andava nessa atura às voltas com o Moussorgsky e os “Tableaux d’une Exposition” e eu, pelo meu lado, andava ocupado com o meu filme “Désert”.
“Désert”, que comecei em meados de 1975 e que só acabei em 81, nasceu da escuta e da descoberta da obra musical de Edgar Varése. Será que se eu nunca tivesse saído de Portugal teria feito um filme inspirado por uma obra do Fernando Lopes Graça ? É pouco provável.
Duma coisa estou certo, “Désert” nunca poderia ter sido realizado em Portugal, nem tão pouco ter nascido (cá estou eu outra vez com a minha teoria que só se devem realizar certas coisas em certos sítios). Porque foram-me necessário anos e anos para conseguir desembrulhar a animação do papel pardo que a envolvida. E o papel pardo era a imagem. Ha! Porque ainda não disse mas agora vou dizer : detesto as imagens.
As imagens são o cemitério das ideias. São coisas mortas que representam o fim duma viagem.
Na animação, o que dá gosto é o movimento. As imagens, elas, são um mal necessário.
A animação é como o Quinto Império. Só no dia em que o cadáver do encoberto subira pelo rio acima, no sentido contrário à corrente, e atingirá a nascente é que o seu mistério será revelado. E o encoberto é o movimento. E o movimento é o meu Quinto Império.
Quando comecei a pensar no filme “Désert” estava farto, saturado, de desenhos animados até à ponta dos cabelos. Mesmo o enunciado “desenho animado” provocava-me comichões. Porque razão ? Porque a palavra “desenho” aparece sempre à frente da palavra “animado”. Ora a nascente da animação é o movimento. É portanto o movimento que dá origem e justifica a imagem e não o contrário. Na prática o movimento é quase sempre utilizado como um meio mecânico, limitado e obediente, submetido às exigências e aos caprichos da imagem. Esta atitude paradoxal impede a criação de movimentos genuínos e mergulha desastrosamente a animação no universo da simulação e da imitação dos movimentos naturais existentes.
“Désert” é um filme “ao contrário”, de dentro para fora, um filme composto de movimentos desenhados.
De todos os filmes que realizei “Désert” é o único que, de momento, ainda não me deu vontade de atirar para o lixo. Quanto aos outros, deviam todos desaparecer como as massagens nos filmes de espionagem que se auto-destroem nos cinco segundos que se seguem.
Não quero dizer com isto que esteja profundamente descontente com tudo o que eles contêm mas creio que certos filmes deveriam desaparecer mais depressa do que outros e que todas as lixeiras cinematográficas produzidas até hoje deviam volatilizar-se para o bem estar das gerações futuras.
Quando me pedem a lista mais ou menos exaustiva de todos os filmes que fiz e que realizei em França (o que representa para mim um autentico frete), constato, como já disse, que nem sequer foi português na escolha dos conteúdos.
Qual não foi o meu espanto quando descobri que o senhor António Gaio anexou-me na sua Historia do Cinema Português de Animação. Figuro na rubrica : cineasta imigrante. Devo esta espantosa descoberta ao meu querido amigo Armando Servais Tiago que durante um jantar, à mesa de um restaurante lisboeta, empurrou o livro para a frente dos meus olhos. Felizmente estava sentado.
Exclamei : “O que é que eu faço aqui dentro” ?
E lá estou, e a minha cara também, a fumar charuto com um ar mafioso. E com um artigo ao lado onde muito se fala dum filme modernaço, “Paris 1789”, em imagem de síntese 3D e desenhos animados sobre a revolução Francesa, que realizei, em França, em 1989, para as comemorações do bicentenário da dita cuja revolução. Filme alias que também já atirei para o lixo (mas isto é segredo porque ninguém sabe). Esta obra de circunstância, que me trouxe mais dinheiro do que satisfações e prazer, valeu-me um convite. Foi em Annecy que dois homens simpáticos se aproximaram de mim com um ar de conspiradores e me propuseram de participar ao Festival de Espinho (já não me lembro de que ano), com o dito filme, como presidente do júri e com uma retrospectiva de todos os meus filmes. Santo Deus!
Felizmente que as coisas não se desenrolaram tal como estavam previstas.
Participei como membro de júri mas cedi a presidência à Faith Hubley, e só alguns filmes foram apresentados. Quanto à retrospectiva, esta ficou para quando eu morrer.
Assim nasceu a minha nova imagem de realizador imigrante versado nas novas tecnologias da imagem e da comunicação. Definitivamente, em Portugal, ninguém está ao corrente daquilo que eu faço realmente.
Guardo todavia deste festival uma recordação inesquecível. Não por causa dos factos que acabo de mencionar, que não têm importância nenhuma, mas porque se passaram duas coisas maravilhosas. A primeira : reencontrei o meu Mestre Armando Servais Tiago. A segunda : encontrei, enfim, um homem excepcional, o meu amigo Jorge Estrela, um sábio, um erudito, um artista, um desses seres durante muito tempo invisíveis de que já falei. Vivemos e trabalhamos quase ao mesmo tempo em Paris mas, como andávamos sempre desencontrados, nunca tivemos a oportunidade de nos conhecermos. Em Espinho, caí nos braços destes dois amigos e nunca mais nos separámos. No fundo é para isto que serve fazer filmes, para criar amizades.
O livro do senhor Gaio fez-me um jeitão. Graças a ele já pude identificar rostos de gente nova que não conhecia. Também compreendi através dele que os cineastas da nova geração andam a demonstrar que Portugal é um país como tantos outros na Europa, onde se fazem filmes de animação similares aqueles que se vêm por todo o lado e nos festivais internacionais em particular. No entanto constatei que de certas caras amigas mais antigas, pouca coisa se diz ou quase nada. A compilação de entrevistas recolhidas neste livro vão sem duvida preencher lacunas e amplificar o trabalho de memória iniciado na excelente Historia do Cinema Português de Animação de António Gaio. As entrevistas têm isto de bom : dão a palavra aos artistas.
Mas isso nem sempre é suficiente. Em muitos casos a palavra do artista não consegue dizer a totalidade do seu génio, do seu ou dos seus talentos. Seria excelente que no futuro fossem igualmente editados outros estudos, análises críticas, exegeses sobre artistas, autores, realizadores, animadores, sem esquecer as tendências, as escolas, os estilos no cinema de animação realizado em Portugal.
No que me diz respeito, como nunca me tomei por um artista, nem tão pouco por um realizador e ainda menos por um realizador português preferi, insisti mesmo, para não ser entrevistado.
Por estas razões estou muito grato à Ilda Castro de me ter oferecido, não obstante a minha salva de reticências, a possibilidade de evocar nas primeiras páginas deste excelente trabalho editorial os meus primeiros passos na animação, algumas recordações intimas, a expressão da minha admiração por certas pessoas assim como algumas das minhas rabugices.
Na verdade, eu não sou nem um realizador nem um cineasta imigrante como está escrito no livro do Senhor Gaio. Não vou dizer o que sou porque também não sei. Se conseguir chegar à idade adulta talvez saiba. Por enquanto continuo a pensar, a comer pão, a beber água fresca e a falar francês. As vezes animo. E quando animo, animo exclusivamente coisas estranhas e singulares que não servem para nada. Outras vezes desenho ou escrevo o que é a mesma coisa. Quando escrevo, escrevo em francês porque escrever em português tornou-se para mim um bico de obra. Esta introdução é testemunho desta dificuldade. Também ensino. Em França e em Lisboa.
Em Lisboa, a maior parte do tempo, pedem-me para ensinar aquilo que sei. Em França, pedem-me, encorajam-me sobre tudo para que eu ensine aquilo que ainda não sei.
Isto chama-se : descobrir.
Ultimamente, desde que voltei a morar aos bochechos na casa onde nasci em Lisboa, tenho consagrado um bom pedaço do meu tempo a animar um Carro Eléctrico e três poemas do Armando Servais Tiago. Duas obras portuguesas ? Sei lá ?…
Já estão acabadas ? Ainda não. Porquê ? Pergunta o produtor paciente cheio de impaciência.
E eu, cobarde, não tenho coragem de lhe confessar a verdade. É que descubro tanta coisa pelo caminho que faço de propósito para que este prazer dure o mais tempo possível. Quanto aos outros que me perguntam o que ando a fazer tomei por habito responder : Nada!
E depois penso naquilo que o Man Ray dizia : Nunca fiz uma obra recente.

José-Manuel Barata Xavier

 

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